21/08/2017

Quisera arder...

Morrer de amor na calma
do desassossego

Pois não é a você que ardejo
Entranho a alma do corpo
objeto de desejo

É o reflexo do meu desenredo;
― oceanos de onde a dor
arquejo


h.f.
21 ago./2017


20/08/2017

Sem fim

(...) mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim,
e também o de chorar, que não se negue a ninguém.

Maria José
(heterônimo de F. Pessoa),
em Carta ao Sr. António.


Era um amor
tão bonito...
tão lindamente
sentido...

Não deveria
ser permitido
amar assim

tão 
sem

fim


h.f.
20 ago./2017


19/08/2017

Puxadinho

Sonhava
um cantinho
de inutilidades
e alinhos
no quintal

Acabou
com um
puxadinho
multi-
funcional

Prioridades, às vezes, mudam...


Penélope,
19 ago./2017


É de sua natureza

O poema
às vezes
vem
medíocre

É de sua
natureza
ser
medíocre

Ainda que
o poeta

com 
destreza
afeto

o verso
lapide

pouco
o redime


Penélope,
19 ago./2017


18/08/2017

Não preciso

Um dia,
não preciso
quando,

escreverei
"Cartas
a Fernando"


Penélope,
18 ago./2017


Na poesia,

como n'outra 
espécie escrita
 ficcional
ou científica,

há o tempo
das cheias 

das estiagens

Em todas
essas paragens,

hiatos 

me 
      
(des)fazem


h.f.
18 ago./2017


16/08/2017

Não convém

Não houve tempo
para um
reconhecimento

Não convém
contrariar
a (des)ordem
do vento


Penélope,
16 ago./2017


Se ela voa

Não se escolhe
uma imagem (poética)
à toa

Acolhe a sua poesia
se ela voa


Penélope,
15 ago./2017


De que é feita

Nem toda espera
se alcança...

Mas de que é feita
a quimera

sem esperança?


Penélope*,
13 ago./2017



*Voz heterônima de Hercília Fernandes, em sua nova página no Twitter.

Fiz-me

Rasquei fotografias

Devolvi presentes
― alguns pouco funcionais
outros, atraentes

Fiz-me anúncio de mulher

solteira 
feliz 

procura

na esteira da (im)própria 
cura


h.f.
15 ago./2017


15/08/2017

Quero uma solidão...

Um silêncio que me diga,
antes que a tarde contra-
diga,

por ser_tão 
arde
em nós


h.f.
15 ago./2017


10/08/2017

Só por hoje,

abraçaria esse
silêncio
que tanto bem 
mal me fez

resistiria

só mais uma 
outra nova 
velha

vez


h.f.
10 ago./2017


07/08/2017

Vão

Quando penso que você
existe

n'algum vão adormecido

do meu
ser

nada poderia ser_tão
triste

quão aquecido querer


h.f.
6 ago./2017

... and all I have to do is think of her". 


20/07/2017

A pessoa que mais gostava

Cê é a minha pessoa;
ainda que não...

Não, não era a minha
pessoa...
Era a pessoa que mais
gostava.


h.f.
20 jul./2017



14/07/2017

Tal receituário ou novela

Há vida fora da tela...

Desse acompanhamento
diário

que se desenvolve precário
tal receituário;

ou novela...


h.f.
14 jul./2017


29/06/2017

Até o estio

A chuva passou
como se não houvesse
o tempo do plantio
e da colheita

E o que restou
até o estio rejeita


h.f.
29 jun./2017


28/06/2017

Em tempo

Não é qualquer sereno
ou mesmo tempestade

que faz sonhar, tampouco 
sorrir

Por que não vê
que está em mim?

Em tempo, sinto saudade...


Nada é, exceto...

A pessoa sente,
sofre...

Recolhe as dores do bem
perdido

Mas nada é
verdadeiramente
sentido

Exceto, o que (se) podia
ter sido


h.f.
28 jun./2017

(Sorry seems to be the hardest word...)


Nada além de uma ideia

Quando se busca alguém...
é porque existe uma convicção
de que se possa ir além
das próprias causas.

De que a capacidade 
de compreensão é maior 
que a consciência das faltas.

Quando se busca alguém
e esse alguém não vem...

O sentimento de amor
(corresponda ou não à busca 
enveredada)
nada significou

além de uma ideia mal

sentida
concebida

interpretada...


h.f.
28 jun./2017


24/06/2017

A pessoa precisa

ser

ter

A pessoa precisa
(re)nascer

para nada
ter

e, no entanto,

tudo precisar
ser


h.f.
24 jun./2017


09/06/2017

De cabo a rabo, amei!

O amigo escritor e revisor literário Cláudio B. Carlos, autor de "O homem do terno de vidro" e tantos outros títulos, fez uma bela apreciação da antologia "Sangria e outros poemas" (2017), que estou tendo o prazer de integrar conjuntamente a outros poetas potiguares.

Convido os amigos à apreciação da postagem "Uma das poucas vezes que, de cabo a rabo, gostei de uma antologia".

Cláudio, querido.
Muito agradeço sua leitura apreciativa e divulgação do livro.
De cabo a rabo, amei!

Um abraço terno
da sua sempre amiga e leitora Hercília.


01/06/2017

Do que outrora

E eis que não mais precisavam
de palavras

Nem mesmo as mágoas exigiam
superação

Compartilhavam enfim
o vazio

Do que outrora concebiam 

ser
   tão



h.f.
1 jun./2017


30/05/2017

Cântico V – Esse teu corpo

Arte: Nu feminino, por Sérgio Zett.

Esse teu corpo é um fardo.
É uma grande montanha abafando-te.
Não te deixando sentir o vento livre
Do Infinito.
Quebra o teu corpo em cavernas
Para dentro de ti rugir
A força livre do ar.
Destrói mais essa prisão de pedra.
Faze-te recepo.
Âmbito.
Espaço.
Amplia-te.
Sê o grande sopro
Que circula...


Cecilia Meireles
In: Cânticos, 1982.


26/05/2017

Como esquecer?

Não esqueci...
― sequer pressenti como!

Como esquecer
o que habita em mim
E, por tão entranhado,
acorda-me até em sonhos?


h.f.
26 maio./2017


16/05/2017

Desta vez

Não direi que desta vez
é pra valer...

 não tem mais volta!

Que a porta hoje fechada
é a mesma que se pode
abrir amanhã

Que o fim é só começo
de outra primavera
Mesmo que o amor não tenha
qualquer apreço à dor 
da espera

Não direi nada...
Ainda assim, tudo...


h.f.
16 maio./2017


15/05/2017

07/05/2017

Não consigo...

A necessidade de sentir
a sua presença
é maior que a consciência
da indiferença 
ou impossibilidade 

É maior que qualquer
desavença
a que chamam de saudade


h.f.
7 maio./2017

    

05/05/2017

Do que fica

O que fica é iminente
nem tempestade 
ou estio permanente
pode extinguir

O que fica é ser-aí...

tão fora
e tão dentro de mim


h.f.
5 maio./2017


04/05/2017

O que fica é assustador

Quando 
a tempestade
se dissipa,
já não somos
nem estamos
os mesmos

Mas o que fica
é tão assustador
tal a experiência
do amor 
que ao desejo
emancipa


h.f.
4 maio./2017

  

01/05/2017

Até a tempestade se dissipar

Tristes dias em que tudo
é vontade
E nenhuma possibilidade
de realização

A música acorda
O silêncio se instala
cortante
E nada mais parece
importar

É... é morrer de amor
até a tempestade se dissipar.


h.f.
1 maio./2017


É triste... (tão triste...)



It's sad (so sad)
It's a sad, sad situation
And it's getting more and more absurd
It's sad (so sad)
Why can't we talk it over?
Oh, it seems to me
Sorry seems to be the hardest word...



Sempre (também) por um fio

Ela
(a tempestade)
sempre vem...

Não nego a força
de sua chegada:
sinto, contemplo,
acaricio...

Não controlo,
porém, o tempo
da enxurrada

Sempre
(também) por um fio...


h.f.
1 maio./2017


29/04/2017

(Disposto)

Não é difícil...
Tampouco, complicado!

O problema é só dispor
ao lado...

O que se deseja
(disposto)
                     ao centro.


h.f.
29 abr./2017


27/04/2017

"Cem" histórias

Alcançamos o fim:
sem encontros e despedidas
sem verdades e memórias
repartidas

"cem" histórias pra recordar...


h.f.
27 abr./2017


22/04/2017

Já nem sou, nem sinto, nem estou

Seria demasiado 
pressupor tudo de mim...

Se nem mesma sei
o que sou, como sinto, 
quando estou; 
como poderias afirmar
se é isto ou aquilo?

Não que não saiba;
Não que não sinta;
Não que não esteja.

Até sei... Até sinto...
Até estou...

Mas entre o sentido
e o saber instituído, 
já nem sou, nem sinto, 
nem estou:

isto ou aquilo...


h.f.
22 abr./2017


21/04/2017

Entre ervas, pedregulhos e espinhos

Não é o trilho
nem o andarilho à metade
do caminho

É o milho que nasce,
cresce
e se colhe sozinho
entre ervas, pedregulhos
e espinhos...


h.f.
21 abr./2017


20/04/2017

Quando

se deu conta
da inoperância do esforço...
recolheu as sobras da insignificância;
largando de vez o osso.


h.f.
20 abr./2017


09/04/2017

Por ele todo

Não é que tenha
esquecido

Abandonado
a ideia
do que poderia
ter sido

Não é por esse
e aquele outro
motivo

É por ele
todo
desconhecido


h.f.
9 abr./2017



04/04/2017

Desapropriação de beleza

Chorar, implorar,
mendigar...

pouco é da minha

natureza

Não espere de mim

santa
ou mesmo profana
devoção

Só desapropriação

de beleza...


h.f.

4 abr./2017


01/04/2017

Distante

E bateu uma tristeza...
Necessidade de chorar...

Como é triste
a beleza
distante do seu olhar.


h.f.
1 abr./2017


28/03/2017

Quase intransponível

Entre o pensamento
e a escrita
há um abismo

Uma ponte 
quase
intransponível

entre o que penso
conjecturo

sinto


h.f.
28 mar./2017


Por gosto

Esqueci seu nome
rosto
endereço

Se cedo ou tarde

fim
ou começo

Esqueci de mim
e por gosto
pereço


h.f.
10 fev./2014



*Poema republicado.

26/03/2017

Sinto

Não, não penso
que o amor seja do meu jeito...

Na verdade, nem penso:
sinto

E sinto muito
 
sentir...


h.f.
26 mar./2017


Se fosse amor

E essa chuva que não cessa,
que faz crescer o estio?

E esse eterno desvario
tão carregado de sentimento
e feitio?

Se fosse amor...
não deixar-me-ia desaguar
no vazio:

preencher-me-ia


h.f.
26 mar./2017


A passos de lesma

Lá fora,
tudo parece
estar na mesma...

Aqui dentro,
a saudade me rasteja

me devora a passos 
de lesma


h.f.
25 mar./2017


25/03/2017

TrêSóis

14 jun./2009

Enquanto bebo cerveja... olho as imagens postas sobre a mesa. Penso no que poderia ter sido – e no que poder-se-ia ser. Se ainda há eu e você. Se uno em nós. Se fomos tão sós que precisávamos de trêsóis para aquecer as noites de inverno. Enquanto bebo cerveja, esqueço que há outros entre lençóis...


h.f. | 
25 mar./2017




*Poema republicado e com nova formatação.

24/03/2017

É melhor você tirar esse chapéu...


Your trousers cuffs are dirty
and your shoes are laced up wrong
you´d better take off your homburg
cause your overcoat is too long


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)